Os distúrbios do metabolismo do ferro compreendem doenças associadas à deficiência ou excesso do ferro no organismo.
A anemia ferropriva consiste na redução dos níveis de hemoglobina devido a níveis de ferro circulante baixos. É de causa multifatorial, sendo gerada a partir de um desequilíbrio entre ingestão, absorção e situações que envolvam demanda aumentada (gravidez e amamentação) ou perda crônica progressiva de ferro (sangramentos). A anemia ferropriva é responsável por cerca de 75% dos casos de anemia do mundo. Em mulheres jovens, a causa mais comum é perda menstrual excessiva; em idosos deve sempre ser investigado sangramento gastrointestinal
Além da reposição oral e/ou endovenosa de ferro, a causa da deficiência de ferro deve ser investigada e adequadamente tratada para a completa resolução do quadro.
O acúmulo excessivo de ferro no organismo pode ser maléfico, quando este ferro em excesso passa a se depositar em órgãos e tecidos e causar disfunções. O acúmulo de ferro ocorre preferencialmente no fígado, coração, e glândulas como pâncreas, gônadas e hipófise.
A hemocromatose hereditária é uma doença genética, em que mutações em genes específicos resultam no aumento exagerado da absorção intestinal de ferro. As manifestações clínicas principais evoluem de maneira insidiosa, com a maioria dos pacientes relatando sintomas como fadiga, artralgia, hipogonadismo, perda de peso, cirrose hepática, miocardiopatias e diabetes mellitus. O diagnóstico pode ser feito com a avaliação clínica do paciente, exames laboratoriais que comprovem a sobrecarga plasmática de ferro, e testes genéticos por busca de mutações mais frequentes. O tratamento geralmente envolve sangrias terapêuticas.
A hemocromatose secundária compreende doenças ou condições em que o excesso de ferro se dá por mecanismos variáveis: repetidas transfusões de sangue ao longo da vida, ingesta de ferro em excesso, doenças hematológicas em que ocorra eritropoiese ineficaz como talassemias e mielodisplasias. O tratamento em geral envolve o uso de medicamentos quelantes de ferro.
A hiperferritinemia é um achado comum na prática clínica, uma vez que a ferritina é um marcador de fase aguda e, portanto, encontra-se elevada em diversas situações (ex.: sepse, malignidade, doença autoimune). Na maioria dos casos de hiperferritinemia, não há sobrecarga de ferro de fato. As causas mais comuns de hiperferritinemia não relacionada à sobrecarga de ferro são a doença hepática gordurosa não alcoólica, a síndrome metabólica e o etilismo.
Assim, a hiperferritinemia deve sempre ser investigada a fim de se definir se estamos frente a um caso de sobrecarga de ferro ou se a hiperferritinemia representa uma alteração secundária a outras condições clínicas, não havendo sobrecarga de ferro real.
Médica formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Fez residência médica em Clínica Médica pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), em Hematologia e Hemoterapia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e em Onco-hematologia e Transplante de medula óssea pelo Hospital Sírio Libanês.
CRM-SP nº 158591