Cuidados Paliativos e Hematologia: uma interface necessária

As doenças hematológicas são potencialmente graves e incluem grande carga de sintomas, com sofrimento físico e emocional para os pacientes e seus familiares. O manejo dessas características é especialmente desafiador, embora grandes avanços nas terapias curativas tenham sido alcançados nos últimos anos.

Os cuidados paliativos consistem em uma ferramenta poderosa para melhorar a qualidade de vida e reduzir o sofrimento de vivenciar doenças hematológicas graves, tanto para os pacientes quanto para seus familiares.

O que são cuidados paliativos?

Ao contrário do que muitos pensam, os cuidados paliativos não devem ser aplicados apenas quando não há mais perspectivas de cura para o paciente. Eles podem e devem ser conciliados às outras formas de tratamento, buscando trazer maior qualidade de vida para o indivíduo e sua família.

Nesse tipo de cuidado, o paciente é considerado de forma integral. São abordadas questões para além da doença em si, como as emoções do indivíduo, seus sintomas, e o impacto que a doença causou na sua rotina.

Os princípios dos cuidados paliativos são:

  • Promover o alívio da dor e de outros sintomas;
  • Afirmar a vida e considerar a morte como um processo natural;
  • Não acelerar nem adiar a morte;
  • Integrar os aspectos psicológicos e espirituais no cuidado ao paciente;
  • Oferecer um sistema de suporte que possibilite ao paciente viver tão ativamente quanto possível, até o momento da sua morte;
  • Oferecer sistema de suporte para auxiliar os familiares durante a doença do paciente e a enfrentar o luto;
  • Promover a abordagem multiprofissional para focar nas necessidades dos pacientes e de seus familiares, incluindo acompanhamento no luto;
  • Melhorar a qualidade de vida e influenciar positivamente o curso de vida;
  • Ser iniciado o mais precocemente possível, juntamente com outras medidas de prolongamento da vida, como a quimioterapia e a radioterapia, e incluir todas as investigações necessárias para melhor compreender e controlar situações clínicas estressantes.

É importante ressaltar a diferença entre cuidados paliativos e cuidados de fim de vida. Os cuidados paliativos devem ser aplicados ao paciente de forma contínua, juntamente com outros tratamentos pertinentes ao seu caso, a partir do diagnóstico de uma doença potencialmente grave. Já os cuidados do fim de vida são uma parte importante dos cuidados paliativos, referindo-se à assistência que o paciente recebe durante a última etapa de sua vida, a partir do momento em que fica claro que ele se encontra em um estado de declínio progressivo, aproximando-se da morte. 

A equipe de cuidados paliativos é multiprofissional, envolvendo médicos, psicólogos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, entre outros.

Exemplos interface hematologia e cuidados paliativos

  • Pacientes com diagnóstico de anemia falciforme: o manejo desses pacientes costuma ser complexo e, apesar dos avanços importantes nas terapias modificadoras da doença, há perdas importantes ao longo da vida desses pacientes. O cuidado paliativo precoce é indicado nessa doença, por ser uma patologia crônica de alto impacto na funcionalidade e qualidade de vida e por sua alta carga de sintomas.
  • Pacientes com cânceres hematológicos (leucemias, linfomas, mieloma múltiplo): o tratamento de tais condições costuma ser bastante complexo e demandante ao paciente e familiares – internações frequentes, idas recorrentes ao hospital para exames e transfusões – além de serem pacientes com alta carga de sintomas, relacionados à própria doença ou aos tratamentos empregados. Ainda, muitas vezes o prognóstico é desfavorável, com impacto emocional importante. A atuação da equipe de cuidados paliativos neste cenário é de extrema importância para reduzir os sintomas e sofrimento do paciente.
  • Pacientes que serão submetidos a transplante de medula óssea: todos os pacientes agendados para transplante devem ser avaliados antes da admissão pela equipe de cuidados paliativos para triagem e estabelecimento de vínculo, quando são identificados os objetivos, valores, esperanças e medos dos pacientes e seus familiares. Durante todo o processo do transplante, desde internação ao seguimento ambulatorial, os pacientes são acompanhados em conjunto, visando um cuidado integral do paciente transplantado.

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INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dra. Aliana Ferreira Especialista em onco-hematologia e transplante de medula óssea.

Médica formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Fez residência médica em Clínica Médica pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), em Hematologia e Hemoterapia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e em Onco-hematologia e Transplante de medula óssea pelo Hospital Sírio Libanês.
CRM-SP nº 158591

Endereço

Centro de Oncologia - Hospital Sírio Libanês
Unidade Itaim
Rua Joaquim Floriano, 533
São Paulo - SP

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